ESPAÇO ABERTO: A saga da Vovó Anja

Entre as décadas de 1930 e 40, em busca de um futuro melhor, um casal de agricultores, com seis filhos deixa a morada na Sanga Funda, em São João do Montenegro, hoje Montenegro-RS, em busca de um novo sonho nas "terras novas" da Palmeira. Viagem de mais ou menos 30 dias em lombo de cavalos. Os poucos pertences transportados em uma carroça-de-boi, que também levava os filhos menores.


O mais novinho, com menos de cinco anos na época, da viagem lembrava apenas da imensa estrada de chão, pontes precárias e travessias dos rios em balsas. E da vaca "bordada" e seu bezerro, companheiros na mudança, pois em muitos dias o leite dela era o único alimento das crianças. A mãe e o pai de corações apertados, sem saber que futuro estavam escolhendo para seus descendentes.


Ao encontrarem a tal Vila Palmitinho, de acordo com o documento de compra, a propriedade demarcada ficava nas proximidades da igreja e dos poucos moradores. A vida no início foi muito difícil, na derrubada de mata para plantação de alimentos para a subsistência familiar e para os animais. Logo já haviam nascido quatro bebês na nova morada, totalizando dez filhos. A área de meia colônia estava pequena novamente. Foi preciso vender e desbravar uma nova colônia do Lajeado Boa Vista até a cabeceira do Caldeirão, por volta de 1945.


Filhos cresceram e casaram-se. Vieram os netos e bisnetos. O pai já estava cansado das viagens de carreteiro. Também cumpria sua missão de vida ao lombo de seu cavalo ministrando o famoso "terço cantado", tradição de família, para fazer homenagem aos falecidos. Sem falar no desgaste das noitadas com sua velha gaita de botões nos ternos de reis. A mãe seguia firme, era o esteio da casa, na criação dos filhos e netos. A parte mais alta da propriedade era a chamada "coxilha", onde ela produzia todos os tipos de alimentos para suprir a casa. Mas era conhecida mesmo por todo o município como benzedeira. Suas rezas curavam doenças já "desenganadas" dos médicos.


Muito doente, o marido faleceu em 1969. Restou àquela mãe, fadada ao sofrimento, mas sempre alegre e cantante, manter a esperança de todos. Nos anos 70 alguns adquiriram outras áreas, outros foram embora, inclusive para os estados do Pará e do Paraná e os que ficaram adquiriram as heranças. E ali naquela mesma colônia ela viveu até o fim de seus dias. Em 2001, com quase 100 anos na certidão e com bem mais de um século de nascimento, ela cumpriu sua missão nesta dimensão ao fechar seus os olhos.


Essa era a Maria dos Anjos Vieira de Azevedo da Rocha (a nossa Vovó Anja) e do Ernestino Quintana da Rocha, pais do Marcírio, Olírio, Maria Francisca (Mariquinha), Melícia, Tertulino, Euclides (Quide), Eraldina (Ladinha), Leopoldina (Polda) e Egisto (todos já falecidos). Eles tiveram mais cinco gestações, entre falecidos pequenos e abortos. A Enilda da Rocha Vicente (Nida) está viva e com mais de 80 anos, firme e forte.


Aqui um pouquinho da história da família ROCHA. Eu sou neto do Quide, o pequeno que veio na carroça de Montenegro e tive a alegria de conviver mais de 20 anos com a Bisavó Anja. Meus pais, Eronides e Pedrinha e demais Rochas ainda moram na Linha Rocha. Esta é apenas uma das muitas famílias que vieram de diversas partes do Rio Grande do Sul e do Brasil e que ajudaram a construir este lindo município, que nos enche de orgulho. Palmitinho, parabéns pelos seus 55 anos.